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03/10/2012

Tecnologia poderá impulsionar reinvenção do dinheiro

 

Pesos-pesados da tecnologia, do mercado financeiro, do varejo e das telecomunicações protagonizam uma batalha épica para transformar os celulares em carteira. É a revolução dos meios de pagamento e do consumo na palma da sua mão.



No futuro não muito distante, o fato de que os homens e as mulheres das primeiras décadas do século 21 usavam pedaços de papel e pequenos retângulos de plástico para pagar suas despesas será um assunto restrito às aulas de história. O dinheiro, como o conhecemos, está prestes a sofrer uma profunda transformação. E, no que depender de gigantes internacionais como Google, PayPal, Walmart, Amazon, AT&T, Apple, Mastercard, Facebook e Visa – e de pesos-pesados brasileiros como Oi, Vivo e Cielo – cédulas, moedas, cheques e mesmo cartões de crédito e de débito em breve serão relíquias. 


Esses titãs corporativos, ao lado de algumas start-ups promissoras, estão cobiçando o mercado de pagamentos móveis, que deverá movimentar US$ 172 bilhões em 2012 e US$ 600 bilhões por ano até 2016, segundo a consultoria Gartner Group. Nele, as transferências de recursos ocorrem por meio de telefones celulares, smartphones e tablets. Para os mais visionários, as novidades incluem identificação por impressões digitais, reconhecimento facial e de voz. Parece cenário de ficção científica, mas essa forma de pagar despesas chegará ao seu bolso ou à sua empresa antes do que você imagina. 


“As tecnologias já estão disponíveis, agora é uma questão de uniformizar padrões e fazer as empresas conversarem”, diz Gilberto Caldart, presidente da Mastercard no Brasil. Percival Jatobá, diretor-executivo de produtos da Visa, vai na mesma direção. “Tudo isso faz parte de algo maior, que chamamos de mobile money”, diz Jatobá. Os números desse negócio são tão superlativos que é difícil imaginá-los. Visa e Mastercard, as duas maiores administradoras de cartões do mundo, foram responsáveis por mais de US$ 9 trilhões em transações no ano passado. Isso mesmo, trilhões. Mais: cerca de 50% dos pagamentos realizados no mundo são feitos por meio de notas e moedas. No Brasil, esse percentual chega a 60%. 


“O dinheiro tem garantido sua sobrevivência, sobretudo nas transações de pequeno valor individual”, afirma o escritor americano David Wolman, autor do livro The end of money (O Fim do Dinheiro, ainda inédito no Brasil). “Mas, com a chegada de novas maneiras alternativas para pagar o táxi, o cafezinho, a revista na banca, etc., o dinheiro se tornará rapidamente um meio de pagamento marginalizado.” Teoricamente, qualquer brasileiro que possua um telefone celular convencional ou um smartphone pode usá-lo para fazer uma compra, pagar uma passagem de ônibus ou um refrigerante em uma máquina de vendas. O potencial é imenso, pois o número de pessoas com telefone celular é o dobro daqueles com conta em banco no País. 


Por que então o celular-carteira ainda não decolou? O que tem retardado essa reinvenção do dinheiro é o grande número de empresas envolvidas – e a acirrada disputa entre elas para saber como serão divididas as receitas geradas pelo mobile-money. Em julho, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, informou que um grupo de trabalho formado por integrantes do Ministério das Comunicações e do Banco Central (BC) trabalha desde maio em um projeto de lei para regulamentar os pagamentos eletrônicos por meio de celulares. A falta de padronização, que faz com que as diferentes tecnologias não se conversem, tem sido um dos entraves, de acordo com os especialistas.


CONCORRÊNCIA É fácil entender o porquê do imbróglio. Até agora, todos os pagamentos por outros meios, além do dinheiro, são processados por bancos e por administradoras de cartão de crédito, que sempre viram as companhias telefônicas como concorrentes. “Até há pouco tempo, esses dois grupos não chegavam a um acordo”, diz Celso Sato, presidente da Accestage, empresa paulista dedicada ao desenvolvimento de sistemas para pagamentos. “Bancos sonhavam ser operadoras telefônicas e as operadoras queriam brincar de ser bancos”, diz ele. Agora, há um consenso entre eles de que as atividades são complementares, e não concorrentes. 


“Os bancos têm muito a aprender na hora de lidar com o cliente de um cartão pré-pago, e as empresas de telefonia podem extrair boas lições dos bancos de como fidelizar a freguesia por longos períodos” diz Jatobá, da Visa. A cooperação foi estimulada pelo surgimento de um inimigo comum, os gigantes do Vale do Silício. Vivo, Claro, TIM e Oi já perderam para a Apple e para o Google a batalha pelo nascente – e lucrativo – mercado de aplicativos para dispositivos móveis. Segundo a consultoria americana Forrester Research, esse negócio deve movimentar US$ 22,5 bilhões no mundo já em 2014. 


Agora, as telefônicas enxergam no celular-carteira a derradeira oportunidade para evitar que se tornem meras provedoras de infraestrutura para o serviço. “Essa é a chance de as operadoras voltarem ao jogo”, disse Philippe Vallee, vice-presidente-executivo da Gemalto, fabricante de cartões, à Bloomberg. “Apostamos no celular-carteira como uma forma de fidelizar o nosso cliente”, afirma Eduardo Aspesi, diretor de segmentos da Oi, que desde 2010 mantém uma joint venture na área de pagamentos móveis com a Cielo, a Paggo Soluções. Podem parecer declarações protocolares, mas elas mostram uma mudança radical na maneira como as empresas encaram a concorrência.


No entanto, ainda que as operadoras de telefonia móvel, os bancos e as administradoras de cartões estejam atentos, serão Apple, Samsung, Google, entre outras fabricantes, que terão o papel central nesse novo mercado. Isso ocorre porque a tecnologia mais promissora para os pagamentos móveis é a chamada comunicação a curta distância, mais conhecida pelo nome inglês Near Field Communication (NFC), que nada mais é que a troca de informações por meio de um chip – algo que passa ao largo das operações de telefonia e das transações financeiras tradicionais. 


VIABILIDADE ECONÔMICA Parece algo esotérico, mas muitos brasileiros já têm algo parecido em seu bolso. Trata-se de uma tecnologia semelhante à empregada no Bilhete Único, cartão usado no transporte público de São Paulo. Para pagar a viagem e liberar a catraca do ônibus ou do metrô, basta aproximar o cartão de uma leitora magnética. Se tiver um chip NFC instalado em seu smartphone, o consumidor terá apenas de aproximá-lo de um leitor específico para pagar o supermercado, o bilhete de cinema ou a tarifa de pedágio. Em compras de maior valor, o sistema poderá exigir a digitação de uma senha no próprio aparelho. 


O nível de segurança nas transações é similar ao dos cartões com chip. “Sem a massa crítica dos celulares equipados com NFC, esse serviço não é viável comercialmente”, afirma Marcelo Coelho, diretor-geral do Mercado Pago, plataforma de pagamentos online do Mercado Livre, maior site de comércio eletrônico da América Latina. O exemplo mais dramático da falta que faz um mercado de massa vem da PayPal, maior empresa americana de meios de pagamento. A diferença entre a situação no Brasil e nos Estados Unidos é gritante. No fim de 2009, a matriz da PayPal passou a permitir que desenvolvedores independentes criassem produtos e serviços baseados na sua plataforma. 


Em março deste ano, foi apresentado ao mercado o PayPal Here, sistema que transforma qualquer iPhone ou smartphone com sistema Android em um instrumento de pagamentos móveis. Direcionado principalmente às pequenas empresas, ele permite realizar pagamentos com um leitor de cartão do tamanho de um isqueiro, ou usar a câmera do telefone para processar cartões. Vale lembrar que outras empresas, como a start-up americana Square, fundada por Jack Dorsey – presidente do conselho do Twitter –, oferecem nos EUA um produto como esse há alguns anos . Trata-se de aplicativo que funciona como um leitor para pagamentos com crédito e débito acoplado ao smartphone. Em julho, uma nova versão chegou ao mercado, e o primeiro cliente é a rede Starbucks, que começou a utilizá-lo recentemente nos EUA. 


Ele funciona da seguinte forma: para usar o programa, os clientes devem baixar o aplicativo e vincular um cartão de crédito à conta. No momento de pagar no caixa, é só abrir o aplicativo e sacudir o celular na frente do scanner. Outra opção de funcionamento é o telefone do cliente notificar automaticamente a loja quando o consumidor adentrar o recinto. Assim, seu nome e sua foto surgirão na tela do caixa, e o atendente efetuará o pagamento. Entre os investidores do Square estão a própria Visa, que o vê não como um concorrente, mas como um estímulo ao uso de cartões. “Este é o começo de algo novo”, declarou Howard Schultz, presidente da Starbucks e investidor no Square. “Para mim, esse é o auge da tecnologia – quando ela desaparece completamente’’, afirmou Dorsey à revista Fortune. 


PARCERIAS O Square ou o PayPal Here ainda não estão disponíveis no Brasil. Por aqui, a empresa iniciante Payleven, pertencente à incubadora alemã Rocket Internet, oferece uma solução semelhante, que está ainda em fase de testes. Os frutos do PayPal no Brasil são bem mais mirrados. Em agosto, a empresa firmou uma parceria com a Vivo, maior operadora do País. O serviço permite realizar transações por meio do celular sem a necessidade de conexão com a internet. Como exemplo, pense numa corrida de táxi. Se o cliente e o taxista estiverem cadastrados no serviço, a conta pode ser paga com um comando enviado por um celular, na hora. Isso é possível graças a uma tecnologia chamada USSD. 


É um recurso similar ao serviço SMS, que permite enviar e receber mensagens de texto nos telefones móveis. Para utilizar o recurso, o prestador do serviço – o taxista citado no exemplo ou qualquer outro, como cabeleireiros, manicures, etc. – deve fazer seu cadastro no site da companhia americana, sem a necessidade de ter um CNPJ, ao passo que o consumidor pode se inscrever pelo celular. O objetivo da Vivo com essa iniciativa é estimular a recarga de celular. “É um meio mais fácil e cômodo de recarregar os créditos”, afirma Paulo Cesar Teixeira, diretor-geral da Telefônica/Vivo. Segundo Mario Mello, diretor da PayPal na América Latina, por enquanto a prioridade da empresa no País são os pagamentos por meio de mensagens de texto, os SMS. 


Nada muito diferente do já oferecido por concorrentes como a Oi Paggo, o Visa Mobile Pay, o Redecard Celular e o MasterCard Mobile. Já o NFC segue sendo testado por quase todos os bancos brasileiros, mas ainda em pequena escala. Essa decisão está alinhada à estratégia das bandeiras de cartão de crédito por aqui. “O foco principal é o aumento das transações eletrônicas nos pagamentos”, diz Caldart, da Mastercard, que desenvolve um projeto-piloto de pagamento móvel na comunidade de Palmeiras, em Fortaleza, capital do Ceará. Nele, o usuário paga uma conta enviando uma mensagem de texto para o fornecedor, e recebe a confirmação do pagamento pelo mesmo meio. 


Tudo isso trafegando em celulares tradicionais, em sua maioria pré-pagos, e sem grandes alterações em relação ao sistema de pagamentos por meio de boletos bancários. Enquanto o NFC não decola, a Cielo oferece um aplicativo de pagamento para iPhone, iPad e iPod touch. O programa transforma os aparelhos da Apple em máquinas da Cielo capazes de processar pagamentos móveis com cartões de crédito Visa, MasterCard e American Express. O público-alvo da ação são profissionais liberais como médicos, dentistas e arquitetos, além de vendedores de porta em porta. 


Atualmente, a Cielo, que recentemente comprou por US$ 670 milhões a empresa americana Merchant e-Solutions (MeS), especializada em pagamento por meio de smartphones e tablets, começou a substituir suas máquinas de transações por modelos adaptados para o NFC. Os gigantes tecnológicos, porém, movem-se aceleradamente. A Microsoft anunciou em junho que prepara o lançamento da sua própria carteira eletrônica integrada a seu sistema operacional móvel, o Windows Phone 8. Já o Google lançou, no ano passado, em parceria com a Mastercard e com o Citigroup, nos Estados Unidos, um sistema de pagamento por meio de celulares com seu sistema operacional Android, o Google Wallet. O serviço funciona a partir de um chip embutido no telefone que usa a tecnologia NFC. 


Assim, quando for fazer o pagamento, o usuário do Google Wallet deve aproximar seu celular do terminal de pagamento – o caixa, por exemplo – para ativar o recurso. Em seguida, digita uma senha em seu próprio aparelho e então o pagamento é realizado. O interesse do Google com essa ferramenta é construir um banco de dados sobre os hábitos de consumo dos usuários e, assim, ampliar ainda mais seu negócio de publicidade online. De posse dessas informações e com o uso de softwares de localização, uma loja poderá, por exemplo, propagandear uma promoção relâmpago imperdível para um cliente que esteja passando pela porta. 


APLICATIVOS A Apple, como de costume, segue uma postura cautelosa. “Eles estão todos lutando por uma fatia desse bolo, mas nós não vamos fazer isso”, declarou Phil Schiller, chefe de marketing global da Apple, em junho. Naquele mês, a empresa mais valiosa do mundo apresentou seu novo aplicativo Passbook, que vem no festejado iPhone 5. O Passbook, desenvolvido pela equipe de Scott Forstall, o gênio da programação que assina o muito bem-sucedido e imitado sistema operacional do iPhone e iPad, é tudo o que uma carteira virtual pretende ser, mas apenas guarda as informações de outros cartões, não processando pagamentos.
 

Parece um tiro no pé, mas quem conhece a Apple argumenta que, com mais de 400 milhões de cartões de crédito cadastrados em sua loja virtual iTunes, ela está bem posicionada para entrar com força nesse mercado. Até o Facebook pode estar de olho nesse filão. David Kirkpatrick, autor do livro Efeito Facebook, afirma que Mark Zuckerberg poderia em breve ampliar o Credits, sistema usado para pagamento de bens virtuais ou de produtos dentro da rede social, para além dos seus domínios. “Integrado a um smartphone, o Credits se tornaria parecido com um cartão de crédito, e isso pode acontecer rapidamente”, diz Kirkpatrick. Já companhias como RIM, Nokia e Samsung deram sinais de que boa parte dos seus smartphones daqui para a frente será compatível com a tecnologia NFC. Em Londres, durante os Jogos Olímpicos, a Samsung, em parceria com a Visa, apresentou soluções de pagamento. 


Depois da Coreia do Sul e do Japão, onde as operadoras de telefonia dominam o mercado de pagamento por celular, a Inglaterra foi o primeiro país a adotar o NFC em larga escala. Atualmente, mais de 140 mil locais em todo o Reino Unido já aceitam esses pagamentos, incluindo os táxis de Londres e os pubs. O impacto econômico será mais duradouro que os Jogos. “Os pagamentos eletrônicos têm um papel fundamental para facilitar o turismo, e os Jogos foram uma oportunidade única para demonstrarmos como a tecnologia muda a forma de as pessoas comprarem”, diz Jim McCarthy, diretor-executivo global de produtos da Visa. Por aqui, avalia Jatobá, da Visa, a Copa e os Jogos Olímpicos deverão estimular a adoção das novas tecnologias.


TRANSFORMAÇÕES O impacto da reinvenção do dinheiro será imenso. Com os smartphones assumindo uma posição importante na hora de consumir, não é só a maneira como pagamos que vai mudar. Toda a relação entre compradores e vendedores será afetada. Segundo Mike Duke, presidente mundial da Walmart, os aplicativos para comparação de preços criarão uma nova era de transparência de valores, que está virando de cabeça para baixo o varejo americano. Esse movimento não deve tardar a chegar por aqui. “A vantagem do varejista foi corroída”, disse Greg Girard, da consultoria ICD Retail Insights, ao The Wall Street Journal. 


Ele descobriu que cerca de 45% dos clientes nos EUA com smartphones os usaram para conferir se aquela promoção oferecida pelo varejista é, de fato, vantajosa. “As quatro paredes da loja ficaram porosas.” Em meio a tantas possibilidades, duas coisas são certas: o celular-carteira veio mesmo para ficar e ninguém ousa ficar de fora desse negócio. “Este é um mercado que não tem como não acontecer”, resume Igor Senra, CEO da MoIP, empresa brasileira de pagamentos online, que possui um aplicativo similar ao da Cielo. Mas, até que ele decole de fato, a briga promete ser boa.


 

Veículo: Revista Isto É Dinheiro

 



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